Page 50 - Revista SPORL - Vol 47. Nº1
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•Alexandra Lopes, et al
A natureza do corpo estranho geralmente determi- no dia seguinte por um otorrinolaringologista. Contudo,
na o quadro clínico.' A maioria (80 a 90%) dos corpos por persistência apenas da disfonia, o doente recorreu a
estranhos que alcançam a via gastrointestinal passam consulta de ORL somente ao 8' dia de evolução. A ob-
espontaneamente, 10 a 20% necessitam de interven- servação da orofaringe foi negativa para corpo estranho
ção não cirúrgica, sendo facilmente identificados e re- e a nasofaringolaringoscopia mostrava um ligeiro abau-
movidos, e 1% necessitam de cirurgia.' Nos adultos, as lamento ao nível da banda ventricular, não se observan-
espinhas são os corpos estranhos mais frequentemente do corpo estranho. Foi medicado com antibiótico e AINE
impactados (71 a 85')/0).1-11 per os, com indicação para ser reavaliado.
Uma anamnese e uma observação cuidadosas são O doente reapareceu na consulta de ORL apenas
de extrema importância em doentes com suspeita de in- ao fim de 2 meses de evolução por disfonia de agrava-
gestão de um corpo estranho. Os sintomas incluem odi- mento progressivo e dispneia ligeira com o es-forgo. A
nofagia, vários graus de disfagia, tosse persistente, al- nasofaringolaringoscopia (Figura 1) observava-se abau-
teração da voz, sialorreia e menos frequentemente uma lamento da banda ventricular direita que se encontrava
complicação respiratória.'," Se o corpo estranho estiver hiperemiada e com tecido de granulação nos dois terços
localizado acima do músculo cricofarírgeo, 95% dos do- anteriores do seu bordo livre, corn apagamento da corda
entes consegue indicar exactamente a sua localização.' vocal homolateral. Realizou IC do pescoço (Figuras 2 e
Este facto, é de particular interesse na ingestão de es- 3) que mostrava uma assimetria da laringe com espes-
pinhas, as quais impactam mais frequentemente (85 a
90"/o) numa localização supra-hioideia, nomeadamente
na amígdala palatina ou na base da lingua. Uma inspec-
ção cuidadosa destas areas permite geralmente a sua
localização e remoçao.1-3,6,9-" Locais menos frequentes
de impactação são a valécula, o seio piriforme, a região
cricofaríngea ou o esófago cervical, sendo o diagnóstico
mais difícil a estes niveis.1,3,6,9
Embora muitos deles possam ser facilmente identifi-
cados e removidos, alguns requerem investigação radio-
lógica para a sua localização. A radiografia de perfil do Fig. 1 I Nasofarirgolaringoscopia
pescoço, com as suas limitações, continua a ser o primei-
ro método radiológico de investigação em doentes com
suspeita de ingestão de um corpo estrarhal,")2
A migração extra-lu minal ocorre raramente2,8, sendo
mais frequente na presença de uma espinha." Atenden-
do a sua forma, este é o corpo estranho que mais facil-
mente migra e como tal, é o que apresenta maior taxa
de complicações.3,4
CASO CONICO Fig. 2 I IC do pescoço (corte axial)
AMCL, caucasiano, 44 anos de idade, sexo masculino.
Doente com história de ingestão acidental de corpo es-
tranho (espinha de corvina), com início imediato de odi-
nofagia direita. Na tentativa de remover a espinha refere
ter efectuado várias manobras com os dedos e ingerido
pão. Apesar de não ter sido bem sucedido prosseguiu a
refeição deglutindo os alimentos sem os mastigar. Com
24 horas de evolução, por persistência de odinofagia,
já não lateralizada, o doente recorreu a um Hospital,
sendo a observação do clinico geral negativa. As 48 ho-
ras de evolução por inicio de disfonia e febre, recorreu
novamente ao Hospital e de novo a observação foi ne-
gativa, tendo sido medicado com antibiótico e analgé-
sico endovenosos. Teve alta medicado com antibiótico
e analgésico per os, com indicação de ser reobservado Fig. 3 I TC do pescoço (corte sagital)
48 REVISTA PORTUGUESA DE OTORRINOLARINGOLOGIA E CIRURGIA CERVICO-FACIAL

