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e menos complicações, no final de 1 ou 2 anos não há 47 anos de idade, com diagnóstico de carcinoma pavimento-
diferença em termos de gastos entre os 2 grupos 13,14 . Outros celular da amígdala esquerda, terapêutica cirúrgica com
autores corroboram esta visão de que a utilização do retalho faringectomia parcial com reconstrução com retalho livre
miocutâneo de grande peitoral na correcção de defeitos orais antebraquial radial microvascularizado. O diagnóstico
está mais associada a complicações pós-operatórias (necrose anatomo-patológico foi feito por biopsia e a classificação
parcial do retalho, deiscência e formação de fístulas) do que cTNM por TC e exame objectivo. Observava-se uma lesão
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os retalhos microvascularizados . infiltrativa da amígdala esquerda com extensão ao palato
Microcirurgia vascular por otorrinolaringologistas: Se na mole sem ultrapassar a linha média e sem atingir o sulco
década de 1990 a presença de cirurgiões com formação glosso-amigdalino. Não se palpavam massas cervicais. Em TC
em microcirurgia vascular nos Departamentos de a lesão tinha cerca de 3x3cm e observavam-se adenopatias
Otorrinolaringologia nos EUA era a excepção, essa característica cervicais à esquerda de características morfológicas de
alterou-se com o tempo. Em 2007 foi publicado um artigo aspecto patológico tendo sido classificado como cT2N2b.
no Laryngoscope que demonstrou, a partir de um inquérito, A cirurgia foi realizada no dia 28 de Setembro de 2011 no
que nos Departamentos Académicos de Otorrinolaringologia bloco operatório do IPOLFG. Constituíram-se 2 equipas: uma
nos EUA, 12,2% dos otorrinolaringologistas dedicavam-se (a) dedicada ao (1) levantamento do retalho antebraquial, (4)
à microcirurgia vascular com retalhos livres (com uma preparação dos vasos receptores, (6) anastomose do retalho, CASO CLÍNICO CASE REPORT
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média de 12,2 otorrinolaringologistas por departamento (7) reconstrução do defeito cirúrgico e (8) encerramento e
e 1,3 a dedicarem-se a esse tipo de cirurgia). Os autores do outra (b) dedicada ao (2) esvaziamento cervical, (3) ressecção
estudo sugerem que o aumento de otorrinolaringologistas a tumoral, e (5) enxerto da região antebraquial dadora.
dedicarem-se à microcirurgia vascular em tão curto espaço No inicio da cirurgia foi realizada traqueotomia protectora da
de tempo possa estar relacionado com o facto destes lidarem via aérea.
previamente com técnicas de microcirurgia (em otologia), 1)Foi escolhido o membro superior esquerdo por ser o
predispondo-os a uma rápida aprendizagem das técnicas. não-dominante (com consentimento prévio do doente) e
Noutro estudo publicado em 2010, dos 54 programas foi verificada, através do teste de Allen, a perfusão da mão
americanos de formação em otorrinolaringologia, que (incluindo polegar) pela artéria cubital, com oclusão da artéria
responderam a um inquérito sobre o treino em microcirurgia radial. Foi marcada na pele a área fascio-cutânea a levantar
vascular, 87% (n=47) afirmaram terem actividade nesta área e o trajecto da artéria radial e veia cefálica. O retalho foi
com maior ou menor extensão, 63% (n=34) têm no seu levantado conforme descrito em diversa bibliografia (Figura
1,8
currículo programas dedicados ao treino de microcirurgia 1).
vascular para os seus internos e “fellows” e 50% (n=27) têm
laboratório para treino de anastomose de ratinhos . FIGURA 1
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Tendo como base as considerações anteriores, muitos Levantamento do retalho antebraquial radial à esquerda
otorrinolaringologistas (e outros cirurgiões com áreas
de formação diferente) tem vindo a desenvolver as suas
competências na microcirurgia vascular em diversas partes do
mundo.
Descrição de caso clínico:
Na perspectiva de não depender da disponibilidade de
cirurgiões externos ao Serviço de Otorrinolaringologia do
IPOLFG para a reconstrução microvascularizada de defeitos
cirúrgicos oncológicos, 2 cirurgiões seniores deste Serviço
com vasta experiência em cirurgia oncológica da cabeça e
pescoço, mas sem experiência como primeiros cirurgiões em 2)Foi realizado esvaziamento ganglionar cervical selectivo
reconstrução microvascularizada, desenvolveram, no ano de supra-omohioideu alargado à esquerda (áreas I-IV).
2011, um programa de preparação prévio que incluiu sessões
de treino de levantamento de retalho antebraquial em 3)A ressecção tumoral foi realizada com faringectomia parcial
cadáver, e treino de anastomose de vasos em ratinhos. esquerda via transmandibular (Figura 2).
As sessões de levantamento de retalho antebraquial em 4)Foi identificada e isolada a artéria facial e o tronco venoso
cadáver fresco tiveram local no Serviço de Anatomia tiro-línguo-faringo-facial e ramos tributários como vasos
Patológica do Hospital Garcia de Orta e as sessões de treino receptores.
de anastomose de artérias e veias em ratinhos vivos (Rattus 5)Após o levantamento do retalho, enquanto a equipa (a)
norvegicus) decorreram na Unidade de Microcirurgia no se dedicava a anastomose vascular, foi colhida pele da coxa
Hospital Egas Moniz. esquerda com dermátomo e enxertada na região antebraquial
Na sequência deste programa, e após consentimento dadora.
informado, foi proposto a um doente do sexo masculino com 6)A anastomose vascular foi realizada com microscópio OPMI
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