Page 56 - Revista Portuguesa - SPORL - Vol 52 Nº3
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A  sua  etiologia  está  relacionada  com  factores  de   pressão facial ipsilateral. O doente negava sintomas
          agressão ou inflamação locais tais como a rinossinusite   de obstrução ou congestão nasal, rinorreia, epistáxis
          crónica, a polipose nasal, rinite alérgica, neoplasias   ou outras queixas rinológicas. O doente negava ainda
          (ex.  osteomas),  displasia  fibrosa  óssea,  alterações   história de cirurgia nasal prévia, mas referia um
          anatómicas, cirurgias prévias, ou trauma 1,2,4 .  traumatismo crânio-encefálico ocorrido há cerca de 30
          A apresentação clínica segue normalmente um curso   anos.  No  exame  objectivo  apresentava  a  tumefacção
          insidioso, com crescimento expansivo da lesão,    descrita,  sem  dor  à  palpação  ou  sinais  inflamatórios
          que deforma as estruturas ósseas e tecidos moles   evidentes, sem alterações da mobilidade ocular ou do
          circundantes, podendo haver extensão orbitária,   exame  neurológico (Figura 1). A rinoscopia anterior
          extracraniana ou intracraniana por erosão das     não  permitiu  identificar  quaisquer  alterações,  tendo
          paredes ósseas do seio que se vão tornando cada vez   a  nasofibroscopia  revelado  fossas  nasais  permeáveis,
          mais adelgaçadas. Por vezes ocorre infecção do seu   sem neoformações ou alterações das características da
          conteúdo mucóide denominando-se nesses casos      mucosa nasal.
          de mucopiocelos . Os mucocelos gigantes são raros   O estudo por tomografia computorizada (TC) mostrou
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          e adquirem essa designação quando apresentam      uma lesão expansiva do seio frontal direito, isodensa
          extensão extracraniana, orbitária e/ou intracraniana e   relativamente  aos  tecidos  moles,  com  acentuado
          se manifestam com deformidade craniofacial, alterações   abaulamento e adelgaçamento/ erosão das paredes com
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          orbitárias e/ou neurológicas .                    discreta  captação  periférica  de  contraste,  compatível
          Apesar dos avanços no tratamento cirúrgico, a     com mucocelo. A lesão provocava deformação dos
          abordagem dos mucocelos frontais permanece um     tecidos moles epicranianos na região frontonasal, com
          desafio  cirúrgico.  A  cirurgia  endoscópica  nasossinusal   expressão no compartimento endocraniano com ligeira
          (CENS) pode ser usada isoladamente na simples     moldagem do lobo frontal direito, bem como extensão
          marsupialização da lesão ou em procedimentos mais   para a órbita onde contactava com o globo ocular
          alargados  como  a  sinusotomia  frontal  do  tipo  Draf  III   (Figura 2).
          (Lothrop  modificado),  ou  pode  ser  associada  a  vias   A  ressonância  magnética  (RM)  crânio-encefálica
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          externas osteoplásticas .                         confirmou a presença de lesão expansiva centrada no
          O objectivo deste trabalho é apresentar o caso de um   seio frontal à direita, com isossinal em T2 e hipersinal
          doente  com  um  mucocelo  frontal  gigante  submetido   em T1 espontâneo, sem captação de contraste,
          a cirurgia endoscópica nasossinusal que incluiu uma   fazendo erosão e moldagem óssea da parede anterior
          sinusotomia frontal tipo Draf III, bem como realizar uma   do seio, com efeito de massa sobre os tecidos moles
          revisão da literatura sobre o tema.               epicranianos e comprometimento da parede posterior
                                                            com extensão para o interior da cavidade intracraniana
          CASO CLÍNICO                                      permanecendo extra-dural.
          AM, 74 anos, sexo masculino referenciado a ORL por   Adicionalmente havia erosão do rebordo orbitário
          apresentar tumefacção frontal, na região da glabela e   superior direito com extensão para a cavidade orbitária
          supra-orbitária direita, de crescimento progressivo com   e contacto com o globo ocular no limite antero-superior
          cerca de 6 meses de evolução, associada a cefaleia e   (Figura 3).

          FIGURA 1
          Tumefacção frontal direita



























      174  REVISTA PORTUGUESA DE OTORRINOLARINGOLOGIA E CIRURGIA CÉRVICO-FACIAL
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