Page 59 - Revista Portuguesa - SPORL - Vol 52 Nº3
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Ao fim do 1º ano de seguimento o doente encontra-se O tratamento dos mucocelos frontais permanece um
assintomático e a TC de controlo demonstrou resolução desafio, podendo-se utilizar vias de abordagem externa
da expansão localizada no seio frontal direito, com combinadas com CENS ou abordagens exclusivamente
solução de continuidade na vertente anterior do septo endonasais.
nasal e recessos frontais em concordância com a cirurgia Na década de 60, popularizou-se a técnica de remoção
realizada, e preenchimento residual do seio frontal do mucocelo via abordagem externa osteoplástica
por densidade de tecidos moles (Figura 5). A imagem com cranialização do seio frontal e/ou obliteração
endoscópica nasal demonstra ampla comunicação do do seio com gordura ou músculo5,6. Porém, apesar
seio frontal com a fossa nasal (Figura 6). desta técnica ter um elevado grau de sucesso,
aproximadamente 93% aos 8 anos de seguimento
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DISCUSSÃO segundo Hardy e Montgomery , também demonstrou
Os mucocelos provocam a expansão, remodelação alta morbilidade, com taxas de complicações major a
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e reabsorção das paredes ósseas do seio atingido, atingir os 20% . As complicações intra-operatórias mais
muitas vezes comprometendo a sua integridade e frequentes eram as fístulas de LCR, a exposição da dura
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ocasionalmente afectando as estruturas vizinhas, e a lesão da órbita. As intercorrências pós-operatórias
intracranianas ou orbitárias. A patofisiologia deste incluíam a cefaleia, infecção da ferida cirúrgica, CASO CLÍNICO CASE REPORT
mecanismo de reabsorção ainda é pouco clara, parestesia de V1, afundamento, bossa ou necrose do
mas pensa-se que envolve fenómenos de osteólise retalho osteoplástico ou cicatriz hipertrófica. 11
provocados pela redução da vascularização óssea O avanço tecnológico na cirurgia endoscópica
devido ao mecanismo de compressão e/ou pela acção nasossinusal (CENS) tornou esta via de acesso numa
de mediadores inflamatórios presentes no mucosa opção na restauração da ventilação e drenagem
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de revestimento do mucocelo (ex. IL1, receptores de fisiológica dos SPN . Em 1989, Kennedy et al descreveram
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adesão endotelial tais como a ICAM-1 e selectina-E) . o tratamento endoscópico por marsupialização de
Os sintomas que geralmente precedem o diagnóstico mucocelos paranasais, com tratamento bem-sucedido
são: a cefaleia frontal; a pressão facial e/ou obstrução em 15 de 18 (83,3%) doentes com um seguimento
nasal. Se não forem tratados atempadamente cursam médio de 17,4 meses . Estudos subsequentes, de
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com deformidade craniofacial, osteíte e osteomielite revisão, com a utilização desta técnica endoscópica em
frontal; com complicações orbitárias que incluem casos de mucocelo com erosão da órbita ou da base de
restrição da mobilidade ocular, amaurose, diplopia, crânio revelaram necessidade de reintervenção com
proptose, celulite ou abcesso orbitário; ou com CENS em 25, 27, 30% respectivamente segundo Hurley
complicações intracranianas tais como meningite, et al, Khong et al and Sautter et al .
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meningoencefalite, abcesso cerebral, convulsões ou Em 1991, Draf descreveu uma abordagem exclusiva-
fístula de líquido cefalorraquidiano (LCR) 2,4,5 . Quando mente endoscópica que conceptualmente se baseava
há infecção do mucocelo, há risco aumentando de numa técnica outrora descrita por Lothrop em 1914,
complicações orbitárias e intracranianas. que combinava uma técnica externa com técnica
O diagnóstico baseia-se nos exames imagiológicos. intranasal para a remoção do pavimento do seio frontal
A TC é o melhor exame inicial quando se suspeita de e seu septo. A técnica descrita passou a designar-se
um mucocelo, demonstrando uma imagem isodensa por procedimento endoscópico Lothrop modificado
homogénea com perda do contorno normal do SPN ou Draf III, cujo objectivo é criar uma via de drenagem
e que pode captar contraste perifericamente se comum e ampla de ambos os seios frontais ao ressecar
2,8
estivermos perante um mucopiocelo . A TC permite a porção superior do septo nasal, o septo interfrontal e
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avaliar a extensão orbitária e intracraniana, a redução o pavimento de ambos os seios .
da espessura e a erosão das paredes do SPN envolvido4. A abordagem cirúrgica endoscópica do seio frontal foi
Os diagnósticos diferenciais de lesões ocupantes de classificada por Draf em três tipos: Tipo I que consiste
espaço que podem mimetizar o mucocelo são os na drenagem simples do seio frontal através da
seguintes: encefalocelos, schwannomas, cordomas, etmoidectomia anterior e remoção de células que se
condromixoma, neurofibroma, adenoma da hipófise, projectam no recesso frontal; Tipo II com extensão da
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cistos retrobulbares e neoplasias malignas dos SPN . drenagem do seio através da remoção do pavimento
A ressonância magnética (RM) está indicada no caso do seio frontal entre a lâmina papirácea e o corneto
de haver dúvida diagnóstica e na avaliação da extensão médio (IIa) ou o septo nasal (IIb); e Tipo III que requer
da lesão, tipicamente apresentam hipossinal em T1 e a realização desse alargamento na drenagem do seio
hipersinal em T2. O contraste com gadolíneo é útil para frontal em ambas as fossas nasais, além da remoção
distinguir os mucocelos de lesões neoplásicas . No caso parcial da porção superior do septo nasal e do septo
4,8
apresentado, a imagem da lesão na RM tinha hipersinal interfrontal .
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em T1 e issosinal em T2, o que pode estar relacionado O acesso Draf II é o preconizado na marsupialização
com o facto do muco infectado ser mais espesso e com simples dos mucocelos frontais, enquanto o acesso
maior conteúdo proteico. tipo Draf III ou de Lothrop modificado permite a
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