Page 38 - Revista Portuguesa - SPORL - Vol 52 Nº3
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a utilização destes fármacos na população pediátrica, a hidrossolúveis (budesonido e beclometasona) estão em
corticoterapia nasal prolongada em crianças continua a relação com uma maior biodisponibilidade sistémica
revestir-se de alguma preocupação pelo risco de efeitos (34 e 44%, respectivamente) em oposição àqueles
sistémicos adversos. mais lipossolúveis (fluticasona e mometasona), os
Este artigo tem como objectivo uma breve revisão da quais apresentam biodisponibilidades sistémicas
literatura no que diz respeito à segurança dos corticóides significativamente menores (1 e 0.1%, respectivamente)
nasais no tratamento da rinite alérgica em crianças, e, assim, menor risco de efeitos adversos sistémicos .
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enfatizando o risco de supressão do eixo hipotálamo-
hipófise-supra-renal (HHSR) e de atraso de crescimento. Supressão do eixo hipotálamo-hipófise-supra-renal
Diversos estudos avaliaram a actividade do eixo HHSR
MÉTODOS em crianças com rinite alérgica sob corticoterapia
A metodologia utilizada para a realização deste trabalho nasal. Dois tipos de teste são utilizados: doseamento
incluiu a pesquisa de artigos científicos disponíveis na do cortisol (plasmático basal ou urinário de 24h); e
base de dados MEDLINE (publicados entre 2000 e 2010), resposta à estimulação com cosintropina (análogo da
através da utilização de termos como corticóides nasais, hormona adrenocorticotrópica), este último com maior
crianças, rinite alérgica, efeitos adversos sistémicos, sensibilidade na avaliação do eixo HHSR 5,12 .
eixo hipotálamo-hipófise-supra-renal, crescimento. Num estudo randomizado, caso-controlo, o budesonido
Foram excluídos os artigos referentes à corticoterapia administrado na dose de 200µg ou 400µg, uma vez
nasal nas crianças no tratamento de qualquer outra ao dia, durante 4 semanas, não conduziu a alterações
patologia que não a rinite alérgica. estatisticamente significativas nos níveis de cortisol
urinário de 24h ; igualmente, a mesma dose de
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Determinantes da actividade sistémica dos corticóides beclometasona administrada durante 12 meses não se
nasais associou a alterações significativas nos níveis de cortisol
Diferentes moléculas foram desenvolvidas ao longo dos plasmático . Por sua vez, beclometasona e budesonido
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anos com o objectivo de optimizar o efeito terapêutico administrados na dose de 400µg, duas vezes ao dia,
local e de minimizar os efeitos sistémicos - budesonido, durante 4 dias, associaram-se a uma diminuição do
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beclometasona e acetonido, são exemplos de fármacos nível de cortisol urinário de 24h . Este último resultado
de primeira geração, em oposição aos corticóides é consistente com o risco de supressão do eixo HHSR
nasais de segunda geração, mais recentes (fluticasona em crianças, quando se utilizam corticóides nasais em
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e mometasona). doses diárias não recomendadas, superiores a 400µg .
Os efeitos sistémicos dos corticóides nasais estão A administração de propionato de fluticasona na dose
em relação com a sua biodisponibilidade sistémica, de 100 ou 200µg, uma vez ao dia, durante 14 dias, não
determinada em parte pela lipossolubilidade, pelo conduziu a alterações significativas dos níveis de cortisol
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grau de absorção, pelo metabolismo e pela ligação a basal . O mesmo fármaco administrado na dose de
proteínas plasmáticas – propriedades que diferem entre 200µg, uma vez ao dia, durante 4 dias, associou-se a
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as várias moléculas disponíveis . uma diminuição do cortisol urinário de 24h, embora
A cavidade nasal retém cerca de 30% do corticóide com resposta normal à estimulação com cosintropina .
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intranasal ; os fármacos mais lipofílicos e com Da mesma forma, furoato de mometasona
dissolução lenta (fluticasona, mometasona) apresentam administrado nas doses de 50, 100 e 200µg, uma vez
um maior tempo de permanência na cavidade nasal, ao dia, durante 14 dias, não se associou a alterações
o que determina maior clearance mucociliar e menor significativas nos níveis de cortisol urinário de 24h ; a
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absorção sistémica . resposta à estimulação com cosintropina também não
A restante fracção de corticóide administrado via apresentou alterações após administração de furoato
intranasal (70%), é deglutida; de uma maneira geral, de mometasona em doses compreendidas entre 200 e
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todos os corticóides nasais apresentam elevada 400µg uma vez ao dia, durante 36 dias .
extracção e metabolização hepáticas (exemplo:
99% para a mometasona e fluticasona, 90% para o Atraso de crescimento
budesonido) . No entanto, a fracção livre do fármaco O atraso de crescimento parece ser um indicador mais
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(responsável pelos efeitos sistémicos) parece ser menor sensível do efeito sistémico dos corticóides nasais do
no caso da mometasona e da fluticasona e maior no que a supressão do eixo HHSR, sendo a avaliação do
caso do budesonido e da beclometasona . crescimento realizada em estudos a curto e a médio/
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Da conjugação de todos estes factores, depreende-se longo prazo (< 6 meses e ≥ 6 meses, respectivamente) 5, 21 .
que o principal determinante da biodisponibilidade A beclometasona administrada na dose de 168µg,
sistémica é a absorção através da mucosa respiratória, duas vezes ao dia, durante 12 meses, conduziu a um
uma vez que neste caso não existe mecanismo de atraso de crescimento quando comparado com o grupo
inactivação como ocorre com a maior parte do placebo: a diferença na taxa de crescimento evidenciou-
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fármaco deglutido . Deste modo, fármacos mais se logo no primeiro mês de tratamento e manteve-se
156 REVISTA PORTUGUESA DE OTORRINOLARINGOLOGIA E CIRURGIA CÉRVICO-FACIAL

