Page 45 - Revista Portuguesa - SPORL - Vol 44. Nº4
P. 45

SALEMA, L.;  MENDES A.; Y RODRIGUES  A.





           INTRODUÇÃO                                            Nos E.U.A., 43% dos professores reduziram
                                                              a sua  actividade lectiva e  18% faltaram ao tra-
              As  perturbações vocais comprometem  a  efi-    balho,  devido  a  problemas  de  voz;  1 1%  dos
           cácia comunicativa de quem tem  na voz a prin-     3,3  milhões  de  professores  americanos  referi-
           cipal ferramenta  profissional.                    ram  perturbações vocais constantes  e 58% ex-
              O  maior grupo que se  encontra  nesta  situa-  perimentaram  problemas de voz,  ao longo da
                                  1                                       6
           ção é o dos professores -6.                        sua  carreira .
              Os professores  recorrem  à  voz,  durante vá-     Os sintomas  de  perturbação da voz,  referi-
           rias  horas,  ao  longo  do  seu  dia  de  trabalho,   dos  pelos  professores  americanos,  represen-
           mas a maior parte não detém quaisquer conhe-       taram  mais  do dobro das  ocorrências  do que
           cimentos  sobre  os  mecanismos  envolvidos  na    os  indicados por outros profissionais:  67% ver-
                                                                      8
           fenação.                                           sus  33% .
              Para além disso, adopta comportamentos de          Apesar da diversidade das metodologias uti-
           mau  uso  e  abuso  (falar com  forte  intensidade   lizadas  no  estudo  dos  problemas  de  voz  nos
           para superar o ruído existente nas aulas, beber    professores, a revisão bibliográfica permitiu con-
           poucos  líquidos  e  possuir  um  padrão  respi-   cluir que existe uma grande prevalência das per-
                                                                                                      17 9 10
           ratório inadequado)  que se  reflectem  na  quali-  turbações vocais,  entre estes  profissionais · • •   .
                                                  1 2 4
           dade da comunicação,  em  sala  de aula  ·  •  •      A  falta  de formação,  no  âmbito  da  utiliza-
              Apesar da qualidade e da precisão da voz        ção  da  voz,  o  mau  uso  e  abuso  vocais  e  as
           não serem  cruciais para o  desenvolvimento da     condições de trabalho têm  justificado essa  pre-
           actividade docente,  os  professores devem  pos-   valência.
           suir  uma  resistência  vocal  elevada,  para         Em contexto clínico, os professores aparece-
           responderem  às  exigências  comunicativas,        ram  entre  as  dez  profissões  mais  frequentes
                                                  3
           acústicas e emocionais da sua  profissão •         que  procuraram  resolução  para  os  problemas
              A  rouquidão,  fadiga vocal, sensação de ar-    de voza· 11-13 .
           dência e  tensão  laríngeo  têm  sido  alguns  dos    Em  estudos  comparativos  portugueses,  os
           distúrbios  vocais  comummente  referidos  pelos   professores  foram  o  grupo  profissional  com
           professores l-6 .                                  mais  queixas vocais  14   e  o  quarto grupo profis-
              Na presença de um  ou de vários  destes sin-    sional  em  termos de prevalência  das disfonias
           tomas,  considera-se que há  uma disfonia,  «ter-  e afonias,  sem  alterações laríngeas  15  •
           mo  referente a  qualquer alteração na  emissão       Vários  inquéritos  revelaram  a  percentagem
           vocal  que  impeça  ou  prejudiq~e a  produção     de problemas vocais em  professores,  nomeada-
                          1
           natural da voz» •                                  mente:
              A  disfonia  pode  resultar  de  lesões  nas  pre-  1)  20% em  61  professores 16 ;
                                                                                                   2
                                                                                               2
           gas vocais,  sendo  nódulos o  diagnóstico mais       2)  54% em 48 professores do 1 e 2 ciclo 17  ;
           comum, a  par do pólipo e do edema vocaP.          e  3)  entre 40 % e  47% em  32 professores de
              Há,  ainda,  outras  perturbações,  resultantes       fitness  18  •
           do uso incorrecto dos mecanismos vocais ou de
           mudanças orgânicas, como a úlcera de contac-          O  presente  estudo  teve  como  principal  ob-
           to,  a  diplofonia e  o  espessamento  das  pregas   jectivo  avaliar e  comparar  a  prevalência  dos
                 7
           vocais •                                           problemas vocais em dois grupos: um grupo de
                                                                                             2
                                                                                                  2
              Dados da Academia Brasileira de Laringolo-      professores  do ensino  básico  (2 e  3 ciclos)  e
           gia  e  Voz  mostraram  que  2% dos  professores   do e-R-sino secundário,  e um  grupo de controlo,
           brasileiros apresentam  distúrbios vocais que os   constituído por sujeitos que não  eram  professo-
                                                1
           obrigaram a  outras funções  educativas  •         res,  nem usavam,  profissionalmente,  a voz.
          -- 380  - - - ---------- ----------------
   40   41   42   43   44   45   46   47   48   49   50