Page 28 - Revista Portuguesa - SPORL - Vol 52 Nº3
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maçãs, a evicção de líquidos frios ou quentes e ingestão de profissional da voz, podem ser definidas como transtornos
sopa de cebola e cenoura. vocais ocupacionais, desenvolvidos por acção directa de
Respostas semelhantes foram encontradas para as situações questões ambientais e pessoais no exercício de uma profissão.
hipotéticas de rouquidão, contudo neste caso a ingestão de Este aspecto pode ter por isso implicações médico-legais,
chás ocorreu em 33,3% dos casos, com maior destaque para o particularmente relacionadas com processos de aposentação
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chá de limão (8%) e a sua associação com mel (5,2%), chá de e invalidez .
casca de cebola (4%) e perpétua roxa ou camomila (1,3%), o Uma noção importante relaciona-se com a formação
aumento da ingestão de água ocorreu em 10,7% e a ingestão que estes profissionais têm relativamente à protecção e
de mel, leite com mel e limão com mel em 13,3%, 9,3% e desenvolvimento das competências vocais.
5%, respectivamente. O uso de “pastilhas para a garganta” No presente estudo podemos observar que 68,8% da
(14,6%), rebuçados de mentol ou limão (9,3%) ou uso de população estudada não tem qualquer tipo de formação em
medicamentos anti-inflamatórios ou outros (12%) foram termos de técnica vocal e apesar de 59,7% dos inquiridos
também descritos. O repouso vocal foi descrito em apenas 5% referir ter noções relativas aos cuidados a ter com a voz, vemos
dos casos e o aumento da protecção com agasalhos em 2,6%. ao longo do restante inquérito que muitas dessas noções não
Apenas 2,7% referiu procurar ajuda médica. estão corretas. Parece-nos claramente prejudicial que apesar
Dos inquiridos, 38,1% descreveram algumas das receitas que de 73,8% utilizar a voz profissionalmente e 64,2% cantar ou
utilizam habitualmente para resolver um quadro de rouquidão já ter cantado, tenhamos menos de 30% com formação de
e que terão surtido efeito. De entre estas destacam-se: chás técnica vocal, sendo que apenas 18% dos inquiridos, que
e infusões variados; a inalação de vapores de água salgada referem possuir técnica vocal, teve formação através de
aquecida; nebulização com infusão com folhas de eucalipto; formação musical ou aulas de canto. Se repararmos também
“xarope de cenoura” e “xarope de limão”; sumo de limão com no papel dos profissionais de saúde, sobretudo médicos
mel; ou xarope de aloé vera com mel e uísque. e terapeutas da fala, no que se refere aos cuidados vocais,
Quanto à eficácia destas formas terapêuticas, 43,1% afirma vemos que estamos muito aquém do que seria desejável. Se é
que os remédios caseiros utilizados surtiram o efeito certo que as comemorações do Dia Mundial da Voz têm vindo
desejado. São aplicadas diversas expressões para descrever a modificar este cenário, também é certo que muito trabalho
esses mesmos resultados. Sobressaem: “alívio da rouquidão está ainda por fazer.
e da afonia”; “amacia as cordas vocais”; “melhora a voz”; Os problemas vocais são relativamente frequentes. Uma em
“aclarou a voz”; “menos rouquidão”; “reaparecimento da voz” cada cinco consultas por queixas faringolaríngeas relaciona-se
ou “voz mais suave”. com uma laringite crónica, que tem muitas vezes na sua base
problemas de uso e abuso vocal, bem como problemas mais
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DISCUSSÃO gerais como o refluxo faringolaríngeo do ácido gástrico . O
O profissional da voz é o indivíduo que depende de uma reflexo destas condições é, na maioria das vezes, apresentado
certa produção e/ou qualidade vocal específica para a sua por uma alteração na qualidade vocal, que sai do padrão de
sobrevivência profissional. Várias categorias profissionais normalidade. Sabemos, no entanto, que o conceito de voz
se incluem nesta classe de indivíduos. Devem também normal é altamente discutível. Por disfonia entende-se então
considerar-se como profissionais da voz todos aqueles que qualquer alteração ou dificuldade que impede a produção
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fazem uso intensivo da voz mesmo em contexto extralaboral. natural da voz .
Se é certo que quando pensamos em voz profissional, a Neste estudo verificamos que 75,4% dos inquiridos afirma ter
associação mais forte é feita com as vozes artísticas, também sentido pelo menos uma vez a voz cansada e 24,4% refere ficar
é certo que a maioria destes indivíduos possui vozes não rouco frequentemente, sendo particularmente importante
artísticas, mas da qual dependem da mesma forma. Neste realçar o facto de isso ocorrer com um carácter semanal em
contexto, podemos ver, por exemplo, um professor como 15,8%. Interessante também é o facto de na voz cantada,
um modelo de voz não artística, pois apesar da enorme 29,9% dos inquiridos referir cansaço vocal no término de uma
demanda vocal a que é submetido, não necessita da dimensão performance ou ensaio, e de entre os inquiridos que fazem
artística da sua voz. Existem duas modalidades básicas de voz uso da voz falada, de forma prolongada em público, 45,5%
profissional, a voz falada e a voz cantada, embora em algumas apresentar o mesmo sintoma. Chama-se ainda a atenção para
situações possa existir o domínio de ambas as emissões. Se a o facto de apenas 26% da população avaliada, realizar algum
voz falada é geralmente uma condição natural e inconsciente, tipo de exercício de preparação antes dessa maior demanda
não necessitando de ajustes ou treino prévio, a voz cantada vocal. Consideramos, por isso, necessário desenvolver
pelo contrário exige treino e adaptações prévias específicas e esforços para que estes profissionais tenham acesso a
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conscientes. Contudo, também a voz falada exige cuidados e formação adequada bem como acompanhamento regular .
adaptações perante níveis de exigência superiores . Tal como referido anteriormente estes profissionais correm,
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Estes profissionais podem, na verdade, ser comparados desde logo pela maior exigência vocal, riscos aumentados de
a atletas de alta competição. Pela maior exigência a que lesão. A análise dos factores de risco nas vozes profissionais
estão sujeitos são mais susceptíveis a lesões do que a deve incluir tanto questões individuais como aspectos
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população geral. Algumas das alterações vocais, no exercício ambientais .
146 REVISTA PORTUGUESA DE OTORRINOLARINGOLOGIA E CIRURGIA CÉRVICO-FACIAL

