Page 94 - Revista SPORL - Vol 43. Nº3
P. 94

0
              Rev. Port.  O  R  L. n.  43, n. o 3,  ................  , Setembro 2005
                                                               PÁGINA DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA
                                                                                     DE OTONEUROLOGIA

                                                       http:/ /www.otoneuro.pt








                             VAMOS DIAGNOSTICAR CORRECTAMENTE AS VERTIGENS!







                 Tenho o maior respeito pelos cole-                                    Se o vertigem é agudo, (os que
              gas clínicos gerais. Eles  têm  de saber                           ocorrem  mais  frequentemente),  muito
              "um bom bocado de tudo" e estão na                                 intenso, recorrente ou não, acompanho-
              "linha da frente" de grande parte das                              da de perturbações autonómicos e de
              doenças agudas.                                                    sinais  que  habitualmente  ajudam  o
                 Contudo,  um  dos  aspectos  que                                diagnóstico (p.e., presença de nístog·
              me  parece continuar a  ser uma folho                              mo sacádico com característicos  par·
              nos  conhecimentos  de  alguns  deles,                             ticulores),  em  regra  elo  é  de origem
              apesar dos acções  de  formação  lev-                              periférico, labiríntico, do foro do olor·
              ados o cabo, entre outros iniciativas,                             rinoloringologista portanto, e o doente
              pelo APO,  diz respeito às vertigens.                              o esta especialidade deverá ser enviado
                 Dizia-me há tempos um amigo clí-                                o  fim  de que,  se  necessário recorren·
              nico  geral:  "Apareceu-me  o  doente                              do o exames complementares especí·
              com  o  cabeça  a  andar  à  roda  e  a                            ficas (exame vestibular),  se posso che-
              vomitar,  e  lá  lhe  tive  que  lhe  dar                          gar o  um  diagnóstico etiológico.
              "Cholipin"  para o  figadeira".                                          É,  no entonto, fundamental ter
                Vamos ver se  nos entendemos.                                    presente que alguns casos de aciden·
                 Primeiro,  é preciso ler o mais pos-                            tes  vasculares  do tronco  cerebral  ou
              sível  a certeza de que se  troto de uma vertigem e não de   do cerebelo,  mais  frequentemente,  ou  outros  patologias
              um conjunto de sintomas mais ou menos inespecíficos, re-  do foro neurológico (p.e., esclerose em  placas, enxaque-
              latados de maneiro muito diferente pelos doentes (cabeço   cas)  podem ler esta  forma de apresentação.
              zonzo, sensação de pisar algodão, sensação de estar num   Se, por outro lodo, o vertigem é sub-agudo ou crónico
              borco o baloiçar, ele.), que correspondem a tonturas, e que   (mais raro),  o coso pode ser  um  pouco mais complicado,
              não têm  um  substrato anatómico e patológico preciso.   o  suo  distinção com  os  tonturas  mais  difícil,  e  o  grau  de
                 No grande maioria  das vezes,  com  uma  história cui·   suspeição de patologia neurológico indolente ser elevado.
              dodoso, é  possível fazer essa  distinção.            Termino  com  um  pedido,  que  o  doente  agradece de
                A  vertigem,  por outro lado,  é o  sensação  ilusório do   bom  grado.  Quando  os  colegas  clínicos  gerais  obser-
              cabeço  o  rodar ou  o  deslocar-se  numa  direcção  em  re-  varem  um  doente no  urgência com uma vertigem  agudo,
              lação aos objectivos que nos  rodeiam,  ou vice-verso,  ou   deitem-no numa moca, se possível numa zona sossegado,
             então, o sensação de pulsão do corpo, qualquer que seja   canalizem-lhe uma  veio  o  fim de poder ser  feito  terapêu-
             o  lodo do mesmo.                                   tico sintomático (ontieméticos e sedativo, esta quanto bos-
                Feito  o  diagnóstico de vertigem,  é  fundamental  ler o   te!) parentérica, e vigiem-no durante algumas horas o  fim
              noção de que elo tem  obrigatoriamente de provir de uma   de  verificarem  o  evolução  do situação:  melhoria  (como
             disfunção (qualquer que seja  o  couso  do  mesmo)  do via   acontece na grande maioria das situações do for do ORL)
             vestibular,  o  qual  se  inicio  no ouvido  interno  (labirinto),   ou evolução de quadro clínico, com aparecimento de outros
             entro  no  tronco cerebral depois de ter atravessado o  es·   sintomas e sinais,  nomeadamente neurológicos.
             poço  sub-orocnoideu  numa  zona  crítico  (pela  frequente   Espero  ter  ajudado  os  colegas  clínicos  gerais  com
             patologia expansiva da mesmo) denominado ângulo pon·   estes conceitos simples mas importantes. Até à  próximo.
             to-cerebeloso,  e termina  numa  área particular do cerebe-
             lo,  não  sem  antes  se  correlacionar  intimamente  com  os
             núcleos de origem dos pores cranianos que presidem aos              JOSÉ  PIMENTEL
             movimentos  oculares,  no  tronco cerebral,  e com  o  medu-  Professor de Neurologia da Faculdade de Medicino de Lisboa
             la espinhal.                                          Vice-Presiden/e da Associação Portuguesa de Otoneurologia

                                                                                                    289--
   89   90   91   92   93   94   95   96   97   98   99