Page 36 - Revista Portuguesa - SPORL - Vol 63. Nº2
P. 36
tópica- fluoroquinolona) de 28,6%, o grupo outros agentes antimicrobianos. Contudo, tem
3b (terapêutica sistémica endovenosa + sido reportado um crescente número de casos
terapêutica tópica- fluoroquinolona) de de resistências às fluoroquinolonas, o que
67,7%, o grupo 4a (terapêutica sistémica oral torna a seleção de um esquema terapêutico
+ terapêutica tópica não-fluoroquinolona) de otimizado desafiante. No entanto, a resistência
28,6% e o grupo 4b (terapêutica sistémica in vitro aos antibióticos é menos relevante para
endovenosa + terapêutica tópica não- a terapia tópica, visto que as concentrações
fluoroquinolona) de 71,4%. Comparando as tópicas obtidas in vivo são mais elevadas do
taxas de sucesso entre grupos foi possível que a concentração inibitória mínima usada
verificar que houve uma superioridade para determinar a sua resistência. Portanto, o
estatisticamente significativa do grupo 2 uso de fluoroquinolonas tópicas em doentes
comparado com o grupo 1 (p < 0,05). Não com otorreia resistente às fluoroquinolonas
se verificaram diferenças estatisticamente poderia alcançar um sucesso terapêutico.
significativas entre os grupos 3 e o grupo Contudo, os resultados do nosso estudo
4 quando comparados os subgrupos com demonstraram que a monoterapia tópica
métodos de administração antibiótica não-fluoroquinolona (Grupo 2), com uma
equivalente, isto é o subgrupo 3a com o 4a e o taxa de sucesso de 31,3%, foi estatisticamente
subgrupo 3b com o 4b (p > 0,05). superior à monoterapia com fluoroquinolonas
O tempo médio desde o início da otorreia até à tópicas (Grupo 1) cuja taxa de sucesso foi
colheita de exsudado foi de 20 ± 17,9 dias e não de 11,1% (p <0,05). O que nos indica que
se verificou uma associação entre o aumento em otorreias resistentes às concentrações
deste tempo e a necessidade de internamento sistémicas das fluoroquinolonas, que
ou a realização de múltiplos antibióticos (p resolveram apenas com tratamento tópico, o
> 0,05). Foi necessário o internamento em esquema com maior sucesso foi a terapêutica
38,9% dos doentes (n = 14) e a realização de tópica não-fluoroquinolona. Já em infeções
múltiplos esquemas antibióticos em 41,7%, que necessitaram de antibiótico sistémico
(n = 15). Como comorbilidades identificadas, adicionado à terapêutica tópica para
16,7 % eram diabéticos (n = 6) e 22,2% resolução clínica, o tipo de terapêutica tópica
apresentavam cavidade de mastoidectomia utilizada não teve impacto estatisticamente
prévia (n = 8). A lateralidade e o género não significativo no sucesso terapêutico (p >0,05).
apresentaram associação significativa com O que parece sugerir que perante infeções
a necessidade de internamento (p > 0,05) ou de mais difícil resolução, com necessidade
com a etiologia bacteriológica (p > 0,05). A de antibiótico sistémico, o tipo de terapêutica
presença de Diabetes Mellitus (DM) esteve tópica utilizada não parece contribuir
significativamente associada à necessidade significativamente para a resolução clínica.
de internamento e à realização de múltiplos À semelhança do reportado na literatura o
1
antibióticos (p < 0,05). Já a presença de agente bacteriológico mais frequentemente
cavidade de mastoidectomia não se associou à identificado foi a Pseudomonas aeruginosa.
necessidade de internamento ou à realização A presença de DM foi identificada como fator
de múltiplos antibióticos (p > 0,05). de risco para a necessidade de internamento,
para a realização de múltiplos antibióticos e
Discussão para a infeção por Pseudomonas aeruginosa.
Os antibióticos tópicos são frequentemente A relação entre DM e infeções otológicas
utilizados na otorreia purulenta, sendo as tem sido amplamente discutida na literatura
fluoroquinolonas os mais eficazes e seguros. médica, com estudos anteriores destacando
Wintermeyer et al. reportaram taxas de a predisposição dos pacientes diabéticos
8
sucesso de 70% com o uso de ciprofloxacina em a infecções bacterianas devido ao
otorreia associada a P. aeruginosa refratária a comprometimento do sistema imunológico
140 Revista Portuguesa de Otorrinolaringologia - Cirurgia de Cabeça e Pescoço

