Page 74 - Revista Portuguesa - SPORL - Vol 50. Nº2
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          neurogénicos, paragangliomas e linfomas . Existem   de massas pulsáteis ou auscultação de sopros são
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          outras lesões mais raras que podem acometer o EP   sugestivos de tumores vasculares .
          como aneurismas, malformações arterio-venosas, quistos   Os  exames  imagiológicos,  tomografia  computorizada
          de fendas branquiais, condromas, condrossarcomas,   (TC) e/ou ressonância magnética (RMN), são essenciais
                                                                                1-5
          fibrossarcomas,  hemangiomas,  hemangioendoteliomas,   no  diagnóstico  dos  TEP . Permitem localizar, avaliar
          hemangiopericitomas, meningiomas, leiomiomas, lipomas,   o  tamanho  e  caracterizar  a  lesão.  A  angiografia  é
          lipossarcomas, rabdomiomas, teratomas, entre outros 3,5,10 .  recomendada quando se suspeita de lesão vascular 2,3,5 .
          O EP é um espaço anatómico virtual com a forma de   A  citologia  por  agulha  fina  (CAAF)  pode  fazer  o
          uma  pirâmide  invertida,  que  vai  desde  a  base  do   diagnóstico  histológico  destas  lesões.  A  biópsia  a  céu
          crânio até ao osso hióide. Os limites do EP são: o osso   aberto não deve ser realizada pelo risco de hemorragia
                                                                                                      1,2
          temporal superiormente; o osso hióide inferiormente;   ou de rotura e consequente disseminação tumoral .
          a fáscia pré-vertebral, os músculos pré-vertebrais e as   O tratamento de escolha é cirúrgico. Várias abordagens
          vértebras cervicais (C1-C3) posteriormente; a fáscia   cirúrgicas têm sido descritas ao longo do tempo:
          bucofaríngea (que  recobre a fáscia faringobasilar e  o   transcervical,  a  primeira  abordagem  descrita,
          músculo constritor faríngeo superior) internamente; o   em  1955,  por  Morfit;  abordagem  transcervical-
          músculo pterigoideu interno e o ramo ascendente da   parotídea;  abordagem  transmandibular;  abordagem
          mandíbula externamente.                           transoral, descrita por Ehrlich em 1950; e abordagem
          A  apófise  estiloideia,  que  se  localiza  num  plano   orbitozigomática,  infratemporal  ou  à  fossa  craniana
          inclinado de cima para baixo e de trás para a frente,   média, descrita por Fisch em 1978 1,4,7 .
          e  os  seus  músculos,  estilohióide,  estilofaríngeo  e   A terapêutica deve ter em conta o tamanho, a localização,
          estiloglosso,  dividem  o  EP  em  dois  compartimentos:   a extensão, a suspeita de benignidade/malignidade da
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          pré-estilóide ou anterior e retro-estilóide ou posterior.   lesão, assim como, o estado geral do doente  e, claro, a
          O  compartimento  pré-estilóide  é  ocupado  pelo  lobo   experiência do cirurgião.
          profundo  da  glândula  parotídea,  tecido  adiposo  e
          gânglios  linfáticos.  No  compartimento  retro-estilóide   CASO CLÍNICO
          encontra-se  a  artéria  carótida  interna,  a  veia  jugular   Homem, 54 anos, com queixas de sensação de corpo
          interna, a cadeia simpática cervical, os nervos cranianos   estranho  orofaríngeo,  apneia  obstrutiva  do  sono  e
          IX - XII e gânglios linfáticos que recebem drenagem da   disfagia desde há 3 meses, de agravamento progressivo.
          cavidade oral, orofaringe, seios perinasais e tiróide 2,3,5 .   A inspecção da cavidade oral demonstrou abaulamento
          Facilmente se percebe a grande variedade de tumores   do palato mole e consequente medialização da amígdala
          que pode existir no EP.                           esquerda (figura 1).
          Os  TEP  podem  permanecer  assintomáticos  por  longos
          períodos  e  são,  frequentemente,  diagnosticados  num   FIGURA 1
                                                            Abaulamento do palato mole à esquerda (triângulo).
          exame  de  rotina.  O  sintoma  mais  comum  é  a  sensação   1-Úvula; 2-Língua
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          de corpo estranho orofaríngeo . O sinal mais comum é a
          tumefacção cervical ou da orofaringe, assintomática 1-3,6 . Os
          tumores tendem a crescer para zonas de menor resistência
          como parede lateral faríngea, região amigdalina, parotídea
          ou submaxilar, espaço retrofaríngeo ou dos mastigadores,
          bainha  carotídea . Tumores volumosos podem causar
                       2,6
          apneia obstrutiva do sono, disfagia ou dispneia. A extensão
          medial do tumor para a nasofaringe pode causar disfunção
          tubária ipsilateral. A compressão dos nervos cranianos
          pode provocar disfonia, disfagia ou disartria. Um síndrome
          de Horner pode ser originado pela compressão da cadeia
          simpática cervical . A presença de dor, trismus ou paralisia
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          dos nervos cranianos sugere malignidade .
          Em alguns casos, o exame objectivo sugere a possível
          etiologia da lesão. Para além da inspecção da faringe,   A TC e a RMN mostraram uma lesão no espaço parafaríngeo
          a palpação bimanual é importante para avaliar o lobo   esquerdo,  compartimento  pré-estilóide,  de  contornos
          profundo  da  parótida,  a  avaliação  neurológica  pode   bem definidos, com cerca de 3 cm de maior eixo, em
          revelar paralisias dos nervos cranianos, a palpação   continuidade com o lobo profundo da parótida (figura 2).


      172  REVISTA PORTUGUESA DE OTORRINOLARINGOLOGIA E CIRURGIA CÉRVICO-FACIAL
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