Page 11 - Revista Portuguesa - SPORL - Vol 52 Nº3
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específica no diagnóstico inicial, no entanto, Van der tratamento foi eficaz na eliminação dos níveis em risco
Putten et al registaram uma sensibilidade e especificidade de infiltração microscópica e que apenas os níveis em
de 80% e 42% respectivamente na avaliação após QT/ que a doença residual se mantém suspeita requerem
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RT . As biopsias realizadas nas semanas subsequentes remoção cirúrgica. Publicações recentes defendem a
ao término da QT/RT podem ser falsamente positivas realização de dissecção cervical seletiva após QT/RT nos
sendo maior a probabilidade de verdadeiros positivos 12 doentes com doença ganglionar persistente. A taxa de
semanas após conclusão do referido tratamento. complicações pós-operatórias nos casos de realização de
A Tomografia Computorizada/Tomografia de Emissão de dissecção cervical seletiva foi de 10% e comparável à taxa
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Positrões (PET/TC) tem sido utilizada nos últimos anos, de complicações observadas após cirurgia primária .
dado o seu VPN elevado, próximo de 100%. No entanto,
o timing para realização deste exame é de 12 semanas OBJECTIVO
após conclusão de QT/RT dado o número elevado de O objectivo deste trabalho é a caracterização dos
falsos positivos nas semanas imediatamente seguintes doentes com tumores da cabeça e pescoço do IPO FGL,
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ao término da terapêutica . Este timing é referido cuja presumível persistência da doença regional por
como prolongado pelos defensores da dissecção cervical critérios clínicos e imagiológicos após QT/RT levou à ARTIGO ORIGINAL ORIGINAL ARTICLE
sistemática, sendo que argumentam uma maior taxa de decisão cirúrgica de realização de dissecção cervical para
complicações cirúrgicas associadas dada a maior fibrose controlo da doença regional.
e infiltração tumoral, quando comparado à dissecção
cervical planeada realizada 4-12 semanas após conclusão MATERIAL E MÉTODOS
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de QT/RT . No entanto, Goguen et al demonstraram Foram analisados 71 processos de doentes submetidos
ausência de maior taxa de complicações cirúrgicas a dissecção cervical nos anos de 2001-2010, tendo
ou diminuição de controlo da doença e consequente sido excluídos os doentes cuja terapêutica inicial ou
sobrevida quando a dissecção cervical foi realizada 12 pós QT/RT envolveu cirurgia da doença local. Foram
semanas após QT/RT . Referem que as complicações também excluídos os doentes operados em que se
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cirúrgicas estão relacionadas com a extensão da dissecção tenha constatado doença regional irressecável intra-
e não com o timing da mesma . operatóriamente. Desta forma foram selecionados 23
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A avaliação anátomo-patológica é também discutível doentes que realizaram QT/RT como terapêutica inicial
relativamente a células neoplásicas viáveis nas peças de tendo sido posteriormente submetidos a dissecção
dissecção cervical. As células viáveis são identificadas cervical por persistência ou recorrência da doença
morfologicamente ou usando imunofixação com Ki-67. A regional.
viabilidade de tumor residual é definida como a presença
de células malignas individuais ou agrupadas em gânglios RESULTADOS
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linfáticos fibróticos ou necróticos . No entanto, não Os doentes selecionados apresentavam os seguintes
é fácil a distinção entre células apoptóticas de células locais primários de doença:
viáveis. Sugere-se que a presença de células viáveis no
pescoço pode ser usado para identificar doentes com TABELA 1
elevado risco de insucesso terapêutico loco-regional Localização do tumor primário
que poderiam beneficiar de terapias adjuvantes,
nomeadamente agentes biológicos. Nasofaringe 7
Por fim e não desprezível, está a relação custo-benefício Amigdala 7
da realização dos exames complementares de diagnóstico Língua/Hipofaringe 7
e/ou o esvaziamento ganglionar cervical salvage ou Palato 2
sistemático. Desta forma, há consenso relativamente
a uma atitude expectante para os estadiamentos N1 A doença cervical foi maioritariamente avançada,
com resposta completa a QT/RT embora se mantenha nomeadamente N2/N3 em 74% dos casos.
a discussão relativamente aos doentes N2 e N3. Foi sempre realizada TC cervical para avaliação após QT/
Recentemente foi realizado um estudo de avaliação RT tendo sido efectuada PET em 2 dos doentes, com
custo-benefício comparando 3 estratégias: 1) dissecção resultado negativo. A punção com citologia foi realizada
cervical sistemática pós QT/RT; 2) dissecção cervical em 4 dos doentes tendo sido positiva em 3/4 e negativa
em doentes com doença residual em TC e 3) dissecção em 1/4. A anatomia patológica da peça de dissecção
cervical em doentes com doença residual em PET/TC. cervical confirmou as 3 citologias positivas tendo o
A análise estatística concluiu um benefício económico resultado histológico da peça de dissecção do doente
para o terceiro grupo, que incluía dissecção cervical em com citologia negativa apresentado ausência de células
doentes com doença residual evidenciada em PET/TC . neoplásicas.
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A extensão da dissecção cervical é também um parâmetro O resultado histológico foi positivo para células
importante a ter em consideração na avaliação pós QT/ neoplásicas em 83% dos doentes operados.
RT. No contexto pós QT/RT pode considerar-se que o
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