Page 8 - Revista SPORL - Vol 59. Nº3
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de incidência . Dado o seu potencial para eventos incompletos pelos autores. Foi considerada falência
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potencialmente fatais, é importante o seu diagnóstico de tratamento médico ausência de melhoria ao fim de
precoce e tratamento atempado. 48h sob antibioterapia endovenosa ou agravamento
Habitualmente a infeção está presente em mais do que clínico e de marcadores inflamatórios na presença de
um grupo de seios, sendo a afeção de um único seio antibioterapia endovenosa
uma situação rara . Assim, podem coexistir no mesmo A análise estatística foi executada com o software SPSS
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doente complicações orbitárias e intracranianas, por versão 25.0. As variáveis discretas são apresentadas
exemplo. Os seios mais frequentemente envolvidos são como frequências e percentagens, e as variáveis
o frontal e o etmoidal. Relativamente à sinusite frontal, contínuas são resumidas com média e desvio-padrão.
esta pode progredir erodindo a tábua externa do crânio, Foi realizada revisão da literatura existente na PubMed,
originando um processo de ostiomielite denominado com os MeSH terms “Sinusitis”, “Complications”, “Child”
tumor de Pott; ou pode ter progressão posterior, dando e “Infant”.
origem a empiema, meningite, cerebrite ou abcesso
cerebral. A principal complicação decorrente de sinusite RESULTADOS
etmoidal é a celulite periorbitária. As complicações No período em estudo foram registados 46 casos
variam de severidade de acordo com a classificação de pediátricos de complicações de RSA. Quarenta e seis
Chandler (tabela 1). Outras complicações decorrentes crianças cumpriram os critérios de inclusão. A idade
de sinusite maxilar isolada são raras, sendo associadas média foi de 7,2(±4,6) anos. Vinte e cinco (54,3%)
a doença dentária ou a um quadro de pansinusite, e doentes eram do sexo feminino e vinte e um (43,7%) do
cursando com edema malar ipsilateral. Analogamente, sexo masculino. O ratio masculino:feminino foi 0,84:1.
a sinusite esfenoidal isolada é pouco comum, mas as Mais de metade dos casos ocorreram em meses de
suas complicações podem resultar em meningite ou inverno: 58,6% (21) vs. 13,1% (5) em meses de verão.
trombose do seio cavernoso por disseminação direta. Previamente à admissão na UPHGR, 19 crianças (41,3%)
As complicações descritas podem ser a apresentação encontravam-se sob antibioterapia prévia oral na altura
inicial na população pediátrica, grupo etário onde do diagnóstico (amoxicilina e clavulanato em 70% dos
muitas vezes o quadro de rinossinusite pode estar casos). O tempo médio de evolução da sintomatologia
oculto. Assim, os autores pretendem descrever as até apresentação na UPHGO foi de 4,6(±3,1) dias.
complicações de RSA na população pediátrica com Clinicamente, os sintomas de apresentação mais comuns
necessidade de internamento: contexto clínico, foram edema palpebral superior e inferior, dor ocular e
características epidemiológicas e o tratamento médico febre. Ao exame objetivo, a proptose e quemose, edema
e cirúrgico realizados no Hospital Garcia de Orta. da mucosa nasal e conteúdo purulento no meato médio
foram os achados mais frequentes.
MATERIAL E MÉTODOS Analiticamente, a elevação dos parâmetros inflamatórios
Foi realizada uma revisão retrospetiva dos processos foi observada na maioria dos casos. Na avaliação inicial,
clínicos de doentes em idade pediátrica com entrada na o valor de leucocitose médio foi 15,5x103(±4,7)/mL e a
Urgência Pediátrica do Hospital Garcia de Orta (UPHGO) PCR 12,6 (±5,3) mg/dL . A avaliação imagiológica com
e posterior internamento por complicações de RSA, tomografia computadorizada (TC) dos seios perinasais
num período de 10 anos (2010-2019). (SPN) foi realizada em 45 doentes. O score de Lund-
Os dados analisados incluíram: demografia, sinais e Mackay médio foi de 11,2(± 4,3).
sintomas de apresentação, características analíticas, Foram reportadas 43 complicações orbitárias (93,5%),
microbiológicas e imagiológicas na admissão, terapêutica, 3 complicações intracranianas (6,5%) e 1 complicação
duração de internamento e evolução. Foram excluídos óssea que coexistiu com uma complicação intracraniana.
os doentes com mais de 18 anos, bem como os Todos os doentes avaliados realizaram antibioterapia
doentes cujos processos clínicos foram considerados endovenosa. O antibiótico usado mais frequentemente
TABELA 1
Classificação de Chandler (Retirado de Scott Brown’s Otorhinolaringolgy )
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I Celulite pré-septal Não há extensão da inflamação para além do septo orbital membranoso
II Celulite pós-septal ou celulite orbitária
sem abcesso Extensão da inflamação para os tecidos orbitários
III Abcesso profundamente ao periósteo dos ossos orbitários, tipicamente
Abcesso subperiósteo
adjacente à lâmina papirácea do etmóide
IV Abcesso orbitário Abcesso intraorbitário que ultrapassa o periósteo orbitário
V Extensão do processo inflamatório para o seio cavernoso, havendo
Trombose/abcesso do seio cavernoso
trombose com possível progressão para abcesso
236 REVISTA PORTUGUESA DE OTORRINOLARINGOLOGIA E CIRURGIA DE CABEÇA E PESCOÇO

